28/09/2004
Ensino tem mais vantagens que desvantagens, dizem especialistas
CAMILA MARQUES
da Folha Online
A educação a distância em instituições de ensino superior é uma prática
nova no Brasil. Segundo dados do MEC (Ministério da Educação), começou a
se firmar em 1997, quando foram ofertados os primeiros cursos de
pós-graduação. O credenciamento oficial por parte do governo federal,
incluindo-se aí o surgimento das primeiras disciplinas de graduação,
porém, se deu apenas entre 1999 e 2002.
Apesar disso, é intensa a discussão acerca das vantagens e desvantagens
da EAD (educação a distância). A verdade é que, mesmo apresentando
algumas ressalvas, os educadores destacam mais benefícios do que
problemas na modalidade.
O pesquisador da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade de
Campinas) Sergio Ferreira do Amaral, 50 anos, que estuda a aplicação de
novas tecnologias no ensino, afirma não haver, "operacionalmente",
empecilhos para ensinar a distância. "A dificuldade geral, hoje, é
manter o mesmo nível de qualidade presente no ensino tradicional. Em
termos geral, é tudo muito novo, e fica difícil estabelecer parâmetros
para comparar. Saber se quem aprende em aulas não-presenciais sabe mais
ou não", afirma Amaral.
Para Amaral, um "problema", que não pode ser visto propriamente como
desvantagem, é o alto custo da produção de material teórico. "A
adaptação do conteúdo didático para novas mídias é muito caro. Requer
linguagem específica, recursos visuais. Tudo isso é feito por pessoas
especializadas que trabalham em parceria com os professores. Mais uma
vez, a mão-de-obra é mais cara. Além disso, hoje é imprescindível o uso
do computador", afirma o pesquisador.
Porém, como destaca também o presidente da Abed (Associação Brasileira
de Educação a Distância), Frederic Michael Litto, esse custo passa a ser
vantajoso quando o universo beneficiado é grande. "Se o material for
utilizado por mil pessoas por ano, por exemplo, já se pagou o
investimento".
Segundo Litto, a única outra desvantagem que ele percebe na EAD é a
falta de uma biblioteca. "O aluno não tem um milhão de exemplares para
consultar", diz. Mesmo assim, esse obstáculo pode ser vencido quando o
aluno tem disposição. "Apesar do horário apertado --ou ele não teria
escolhido um curso a distância--, existe a opção de visitar
bibliotecas", diz.
Vantagens
Na outra ponta, a das vantagens, existe consenso pleno entre o professor
da Unicamp, o presidente da Abed e outros participantes do setor: a EAD
permite atender a um público muito maior e mais variado que os cursos
tradicionais. Público esse, aliás, que não teria como voltar ou
continuar a estudar sem a EAD.
" [A educação a distância] atende a pessoas ocupadas, sem
disponibilidade de horários e otimiza o tempo livre", cita Litto.
"Alguém com alguma deficiência física grave ou alguma paralisia, que não
pode sair de casa, ganha a oportunidade de estudar", completa. "Ela
[EAD] pode ser considerada uma ferramenta de inclusão social", declara
por sua vez Amaral, da Unicamp.
Interação
A falta de troca de experiências entre professor e aluno e de
convivência humana são citadas como desvantagens da educação a distância
por quem ouve falar no assunto pela primeira vez. Mas há quem vê nessa
falta de contato algo nem tão grave assim.
"Havia perdas no começo, mas com o largo uso da internet isso
desapareceu. Não que o contato humano para um jovem em desenvolvimento
não seja importante. Mas na EAD essa falta [de contato] não pode ser
vista como um item que torna o ensino menos efetivo ou pior", afirma o
professor da Unicamp Sergio Amaral.
Na opinião do presidente da Abed, Frederic Litto, a internet preencheu a
lacuna. "A sociabilização existe sim. Há os chats (salas de bate-papo),
as videoconferências. Os alunos não são apenas nomes na tela, têm
rostos com o uso da webcam", afirma ele. "Muitas vezes, existe até maior
liberdade para levantar dúvidas, porque a inibição de falar na frente
de uma classe inteira é descartada", continua.
"É uma questão de cultura adotar a educação a distância", declara
Amaral. "Assim como não é hábito usar a televisão para educar crianças.
Falta capacitar os professores para usar a tecnologia e adequá-la, seja
com a TV seja com a internet", afirma.
|
Nenhum comentário:
Postar um comentário